
O chip que cura: ele vai ler o seu DNA
Vem aí a consulta médica baseada na leitura genética. Ela poderá revelar na hora
a sua saúde atual e a futura
Você chega ao consultório, o médico lhe retira uma pequena amostra de sangue (ou
de células de um órgão, de qualquer parte do seu corpo) e injeta esse material
numa placa de silicone. A seguir, coloca essa placa sobre outra parecida, em um
painel, e começa a conferir pequenos pontos de luz em uma tela de computador. As
luzes são lidas por um programa - a operação não dura mais que 20 ou 30
segundos - e você fica sabendo, na hora, não só o problema de saúde que tem, mas
algum outro que poderá vir a ter no futuro. O exame poderá mostrar, ainda,
certas características de seu organismo que recomendam um tipo específico de
remédio, a ser preparado só para você. E a chance de erro é praticamente nula:
naqueles 30 segundos, milhares de seqüências de seu DNA (o ácido
desoxirribo-nucléico, que é a própria base da constituição de um organismo)
foram expostas a uma outra amostra de DNA "montada" em laboratório; as
coincidências e diferenças compõem um retrato de seu código genético.
Bem-vindo à Medicina do ano 2010, com seus diagnósticos imediatos e praticamente
perfeitos. Bem-vindo à era dos chips genéticos. Não é um sonho: esse tipo de
consulta médica já está a meio caminho. Empresas de alta tecnologia como
Affymetrix, Nanogen, Hyseq ou Incyte, em cidades como Santa Clara, Sunnyvale e
San Diego, todas no Estado da Califórnia, EUA, vão longe na tarefa de dominar as
seqüências do DNA e conhecer melhor as alterações que correspondem a
determinadas doenças.
Os dois passos seguintes serão criar uma maneira de registrar aquelas anomalias
e definir os tratamentos específicos para cada paciente. Os pesquisadores
calculam que em menos de uma década irão dominar essa tecnologia. Feito isso,
vão ficar para trás, como velharias históricas, as consultas médicas de hoje.
A idéia do chip genético já tem nove anos. Nasceu em 1989 em Santa Clara, quando
Stephen Fodor, jovem pesquisador de um pequeno laboratório, o Affymax,
trabalhava em um projeto com moléculas, para checar se elas poderiam ser
reunidas em uma espécie de cartão, ou placa, e testadas para o uso em certos
remédios. Ele utilizava uma grossa placa de vidro na qual, com a ajuda da luz,
formava-se uma complexa grade de milhares de moléculas. A placa era carregada de
proteínas para se estudar as reações das moléculas - e foi aí que Fodor imaginou
uma operação mais ou menos semelhante, mas com moléculas de DNA.
Se desse certo, haveria um modo de conhecer praticamente na hora as anomalias do
código genético de uma pessoa e saber se ela está doente, do que está doente, e
até mesmo prever se ela está propensa a sofrer um distúrbio cardíaco,
desenvolver algum tipo de câncer ou contrair o mal de Alzheimer. Um chip desses
poderá até mesmo contar, caso as mães queiram mesmo saber, se seu futuro bebê
vai ter o vigor e os reflexos de um grande atleta, ou a inteligência de um
Einstein.
Lendo as luzes
Fodor e outros nove cientistas formaram em 1993 a Affymetrix, para realizar o
sonho. "Na época, todos achavam que estávamos malucos", recorda ele. "Mas eu via
com clareza o potencial dessa tecnologia." Esse potencial não está parado no ar:
ele pode caminhar sobre o sólido chão do Projeto Genoma. Este é o nome de uma
ambiciosa operação, iniciada na década passada, para identificar e destrinchar
os segredos dos cerca de 100 mil genes do organismo humano. Ela vem sendo
executada por médicos de muitos países, inclusive do Brasil, e deve terminar por
volta de 2005, com a leitura completa de todos os genes do homem. Os chips
representariam um passo adiante - o Genoma decifra os genes e eles captam as
suas anomalias, as pequenas alterações na seqüência de suas bases químicas que
tornam uma pessoa mais gorda, mais nervosa ou mais exposta a um enfarte.
A genética já sabe que um DNA é composto de dois filamentos que se desdobram
paralelamente, em espiral, e que são ligados por quatro diferentes bases
químicas - duas de cada lado, semelhantes a bastonetes, que se encontram a meio
caminho (ver ilustração). Sabe-se que essas quatro bases (adenina, citosina,
guanina e timina, conhecidas pelas letras A, C, G e T) se combinam sempre em
pares iguais, A com T e C com G. Portanto, conhecendo-se a seqüência de bases de
um dos lados (filamentos) de um DNA, pode-se saber qual base (ou seja, a letra)
que deve estar do outro lado. Exemplo: para uma seqüência A, C, T, do outro lado
a seqüência "normal" tem de ser T, G, A. Se aparecer uma base diferente, algo
está errado na seqüência.
O desafio daqueles laboratórios é "montar" um chip com filamentos isolados de um
DNA nos quais são dispostas determinadas seqüências - milhões delas, com a ajuda
de um computador. A amostra de DNA recolhida do paciente seria então exposta ao
DNA montado nesse chip, de modo que as duas se juntassem como as duas metades de
um zíper. Suas quatro bases A, C, G e T se ligariam naturalmente às seqüências
que o complementassem com exatidão. Cada vez que acontecesse essa conexão
"correta", apareceria na tela do computador uma luz, ou irradiação, mais forte.
Onde não ocorrer essa ligação, fica claro que o DNA do paciente apresenta
alterações, ou mutações, na seqüência química.
Doença única
O que isso quer dizer? Que a seqüência dife-rente constitui uma anomalia
reveladora de alguma doença. Qual? Isso depende das seqüências com que o chip
foi alimentado. Esses conceitos não são novidade para os especialistas. O valor
do chip estaria em sua capacidade de ler milhares de genes de uma só vez. Mas o
trabalho de ajuntar milhares de amostras de DNA, numa placa de vidro do tamanho
de um polegar, exige paciência. "É como construir uma cidade de arranha-céus, um
andar de cada vez", compara Bob Carroll, o diretor do projeto em Santa Clara.
O desafio seguinte é compactar o máximo de dados em um chip. Hoje, a Affymetrix
consegue concentrar 400 mil seqüências de DNA em cada um, o que lhe permite
examinar uma seqüência de DNA de 100 mil unidades. "Daqui a uns cinco anos
conseguiremos 10 ou 20 vezes mais que isso", calcula Stephen Fodor.
Limites éticos
Um dos mais importantes benefícios desse chip é o que seus padrinhos já chamam
de medicina personalizada. Nunca se explicou, adequadamente, por que certos
tratamentos curam completamente uma doença em certas pessoas, e não fazem o
menor efeito, ou até causam problemas, em outras que apresentam o mesmíssimo
problema. O motivo, ao que parece, é que muitos males tidos como uma única e
mesma doença - por exemplo, câncer no seio - são na verdade distúrbios distintos
causados por diferentes falhas genéticas. Essas marcas individuais, como a
presença de um G no lugar de um A, em um determinado gene de uma pessoa, são
encontradas, na média, uma vez em cada mil. É o que faz de cada um de nós uma
pessoa única, diferente do resto do mundo.
A leitura genética desses chips tornará possível caracterizar uma penca de
subtipos de doenças, abrindo caminho para tratamentos individuais. Já existe,
hoje, um chip padrão da Affymetrix programado com seqüências de DNA capazes de
detectar mutações do vírus HIV - o que permite prescrever remédios antiviróticos
específicos para cada caso. Um teste confirmou que a mínima alteração de um C
para um A, em um gene chamado ApoE, aumenta em 15 vezes a chance de uma pessoa
ter, no futuro, o mal de Alzheimer.
Por outro lado, se a pesquisa dá passos largos, novos proble-mas têm aparecido.
Um deles, de natureza ética, é que as empresas selecionam as doenças a
investigar não por sua utilidade, mas pelo potencial de vendas do remédio para
elas. Doenças como asma , diabetes ou câncer no seio, por exemplo, interessam
mais do que uma alergia rara. "A tecnologia e informação estão à vista mas
estamos ainda decidindo se é ética e economicamente viável utilizá-las", adverte
Judes Poirier, do McGill Centre for Studies in Aging, no Canadá.
As 4 letras da vida
Embora a leitura genética do DNA represente uma técnica mais sofisticada, a sua
análise já é utilizada na medicina em tarefas como detectar problemas de fetos
durante a gravidez ou até em processos judiciais, para definir a paternidade de
alguém. As pesquisas no assunto são antigas. A molécula do ácido
desoxirribonucléico, ou DNA, é formada por duas fitas, cada uma constituída por
uma série de blocos moleculares enfileirados (os nucleotídeos) que têm uma base
nitrogenada, um açúcar e um fosfato. Há apenas quatro bases nitrogenadas:
adenina, citosina, guanina e timina. No DNA, um bloco A, numa das fitas, está
sempre emparelhado com um bloco T na outra; e um bloco C com um bloco T. Quando
a molécula se duplica, as duas fitas se separam e cada uma delas constrói uma
fita complementar ordenando blocos livres dentro do núcleo. A nova fita é
idêntica à anterior. Assim, o DNA inteiro é formado por numerosas combinações de
quatro blocos moleculares. Vale dizer que o alfabeto da vida tem quatro letras,
A, C, G e T. Cada bloco, isolado, não tem significado independente: são
necessários três para configurar um significado genético. Esse conjunto é
chamado códon e os quatro blocos, combinados três a três, formam um total de 64
códons.
Cada códon codifica um aminoácido; os aminoácidos compõem as proteínas e estas,
por sua vez, formam as células e influenciam todo o funcionamento celular.
Galileu, 1999.