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A genética no divã Pesquisas mostram até que ponto a personalidade, o temperamento e as escolhas de vida estão definidos antes do nascimento.
Observe o bebê ao lado e tente imaginar o diálogo dos pais na maternidade procurando reconhecer os próprios traços nos olhos negros, nas bochechas gorduchas ou no nariz batatinha da criança. Se fosse possível, sob o olhar curioso dos parentes, mapear célula por célula na busca de outras marcas familiares, viria à tona muito mais que os sinais físicos de semelhança inconfundível com as características marcantes do pai e da mãe. Está provado que a química da hereditariedade trama tanto a forma do nariz, a cor dos olhos e da pele quanto as linhas gerais do comportamento de cada indivíduo.
A cada dia, novas descobertas sugerem que agressividade, atração pelo perigo, dependência química, homossexualismo, entre outras características, são determinadas em grande parte pela carga genética. Mas cuidado! Genética não é destino nem tampouco justifica qualquer tipo de discriminação ou idéia preestabelecida. Pesquisas instigantes como a do biólogo molecular Dean Hamer, chefe do laboratório de bioquímica do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, sobre os genes que estão por trás do homossexualismo masculino e da tendência à promiscuidade, à depressão e à ansiedade vêm apenas acrescentar uma nova dimensão ao estudo do comportamento humano - além do que já se sabe sobre as regras da evolução das espécies, do papel do ambiente, das relações sociais e pessoais.
No livro Vivendo com Nossos Genes (Doubleday, 1998), Hamer faz o primeiro apanhado das descobertas iniciais dessa nova ciência. Usando como exemplos os casos de pessoas cuja vida pesquisou, ele constrói um guia para que cada um aprenda a diferenciar, na sua personalidade, o que é inato daquilo que pode ser mudado pela força do caráter. "Cada vez que usamos a vontade, reprogramamos o cérebro para superar as tendências inatas", diz Hamer. "A genética é um instrumento de libertação, uma janela científica para conhecer melhor a alma humana."
Surpreendente? Não, dizem os psiquiatras. "A influência dos genes sobre a personalidade é indiscutível para a psiquiatria há pelo menos dez anos", confirma Jair Mari, professor da Universidade Federal de São Paulo. A dança entre genética e meio social explica desordens mentais como psicose (43% dos casos ligados à herança dos pais), doença obsessivo-compulsiva (40%), esquizofrenia (26%) e depressão (10%). Nos Estados Unidos, 7 mil pares de irmãos gêmeos foram analisados pelo Centro de Pesquisas de Gêmeos e Adoção de Minnesota. Descobriu-se que temperamento forte é 60% resultado de herança genética. Curiosas também são as conclusões sobre a atração por experiências estéticas. O envolvimento provocado por obras de arte, música e livros é herdado dos pais em 55% dos casos.
Os estudos chegaram até o gene da felicidade, que fica no cromossomo 17 - um dos 23 pares de moléculas portadoras da informação genética existente no núcleo das células -, responsável pelo transporte da serotonina, substância reguladora do humor, para o cérebro. Nos mal humorados crônicos, esse gene é mais curto. "Faz sentido e fica mais fácil compreender as pessoas que estão sempre de mal com o mundo", afirma Mayana Zatz, professora da Universidade de São Paulo e participante do Projeto Genoma, a maratona internacional de mapeamento dos genes humanos.
Embora sentindo-se outra pessoa, a paulistana Ana Paula Migliari Paschoal não precisou trocar de identidade para contrariar a mensagem transmitida pelos genes. Ana Paula, que aos 13 anos chegou aos 106 quilos, como muitos de seus familiares, cresceu em um ambiente de celebrações ao redor da mesa. Aos 22 anos, com dois filhos e uma coleção de frustrações, decidiu que mudaria de vida. Há sete anos exibe nova silhueta (70 quilos) e tornou-se orientadora do grupo Vigilantes do Peso. "Predisposição genética é moldável", diz ela. "Qualquer um pode mudá-la se quiser." Mas até certo ponto, advertem os cientistas.
Um estudo com 240 pares de gêmeos suecos (todos com mais de 80 anos) publicado pela revista Science, por exemplo, atribui 70% de ligação entre genes e inteligência. O estudo aponta ainda a relação de rapidez de processamento de informações (62%) e habilidade verbal (55%). Mais subjetivas e difíceis de analisar, aparecem peculiaridades como sofisticação (de 40% a 50%), extroversão (de 38% a 52%) e simpatia (de 30% a 50%). Antes disso, o inventor da lâmpada, Thomas Edison, já confirmava: "Talento é 1% de inspiração e 99% de transpiração". Só a proporção mudava.
As gêmeas brasilienses Isabel Cristina Soares Duarte e Maria Aparecida de Souza, de 33 anos, serviriam de bom exemplo da ponderação entre genes e ambiente. Criadas por famílias diferentes, elas se conheceram apenas aos 17 anos. Apesar disso, a lista de gostos e temperamento em comum é tão expressiva quanto as semelhanças físicas. Ambas são calmas, falam num tom de voz baixo e, desde crianças, preferem a cor azul. Gostam de música sertaneja e votam no PT. Enquanto Isabel estuda Letras, Aparecida trabalha em uma livraria. Hoje sabem que adoecem ao mesmo tempo, mas Isabel nunca se esqueceu de uma consulta feita no posto de saúde de Taguatinga quando tinha 6 anos. "O doutor dizia que não ia medicar a mesma criança duas vezes", conta. A irmã, ainda desconhecida, saíra do consultório havia poucos minutos. Com os mesmos sintomas e a mesma receita.
Em 1993, quando o americano Hamer divulgou sua pesquisa sobre homossexualismo, provocou uma controvérsia que ainda não amainou. Mas aos poucos as peças do quebra-cabeça se encaixam. A variação do cromossomo X, comprovada em 1993 por um estudo com quarenta pares de irmãos homossexuais, evidenciou que os genes ajudam a determinar a orientação sexual dos indivíduos. Desde aquela época o geneticista Renato Zamora Flores, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, estuda voluntários com a colaboração do Grupo Gay da Bahia. "A pesquisa já descartou a influência da estrutura familiar na opção dos indivíduos", explica Flores. Mas a proporção de parentes homossexuais revelou-se um dos achados da investigação. Entre os heterossexuais, apenas 18% relataram ter algum homossexual na família. Na parcela dos gays, a proporção saltou para 50%.
O mergulho da ciência nos genes e suas conclusões impressionam, mas o conhecimento biológico representa uma via de mão dupla. Com pequenas distorções, as teses poderiam dar margem a delírios discriminatórios como a eugenia, que nos anos 30 propunha o "aperfeiçoamento" da raça humana. A ficção científica, retratada no filme Gattaca - A Experiência Genética, exibido recentemente nos cinemas brasileiros, mostra também como falha a engenharia genética ao tentar construir sob encomenda bebês fadados ao sucesso. Além disso, desde que o médico italiano Cesare Lombroso, nascido em 1836, tentou provar de maneira preconceituosa que a tendência ao crime é hereditária, a pesquisa genética provoca desconfiança. Ao mesmo tempo, as descobertas encorajam discussões a respeito do uso benéfico e responsável da tecnologia. Se quiser evitar que a ficção de Gattaca se torne realidade, a sociedade só tem a ganhar com esse debate.
Cristiane Segatto, Silvia Campolim, Ugo Braga (De Brasília) E Jorge Pontual (De Nova York), © 1998 Editora Globo S.A.
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