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Um passo adiante Pesquisadores americanos descobrem método que poderá levar à descoberta de uma vacina universal contra o HIV
Uma nova estratégia de combate anima os cientistas envolvidos no desenvolvimento de vacinas contra o vírus da Aids. O alvo máximo dos pesquisadores sempre foi encontrar um imunizante capaz de neutralizar todos os subtipos de HIV conhecidos no mundo. Com isso, a mesma dose oferecida aos americanos seria eficaz no Brasil, na África, na Tailândia ou em qualquer outro país afetado por uma das nove formas diferentes do vírus. A possibilidade ainda é remota, mas o estudo publicado pela revista Science na sexta-feira 15 indica um caminho promissor. Pela primeira vez, os cientistas conseguiram produzir anticorpos contra a conformação do vírus pouco antes de invadir a célula sadia. Com isso, foi possível neutralizar subtipos A, B, C, D e E e não só a forma B, mais comum nos Estados Unidos e na Europa e associada às vacinas em teste.
O grupo liderado por Jack H. Nunberg e Rachel LaCasse, da Universidade de Montana, nos Estados Unidos, encontrou uma nova forma de interferir na proteína gp120, a chave utilizada pelo vírus para entrar nas células. A equipe notou que a proteína da membrana do vírus muda de formato várias vezes, o que exige um antígeno para cada processo. A gp120 extraída de pacientes infectados foi congelada no momento exato em que entrava na célula e sua estrutura injetada em camundongos transgênicos. Os animais produziram anticorpos capazes de inibir a infecção pelo HIV de vários subtipos genéticos. Embora esse antígeno não seja por si só um candidato à vacina, os pesquisadores acreditam que o princípio poderá levar ao surgimento de um imunizante.
No Brasil, são conhecidos os subtipos B, C, D, F e uma combinação entre B e F. A forma B é a mais freqüente, embora 50% dos casos indiquem um B bem brasileiro, diferente da categoria encontrada nos Estados Unidos e na Europa. Portanto, uma vacina desenvolvida apenas para esse grupo não beneficiaria toda a população. A descoberta encoraja os especialistas brasileiros. "É um passo importante, embora os anticorpos não tenham sido tão eficientes em alguns subtipos", comenta Mariza Morgado, da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz).
Sabe-se que o vírus precisa de três chaves para entrar na célula: duas localizam-se justamente na proteína gp120 e outra na gp41. Em vez de tentar neutralizar a gp120 antes do momento da infecção, como faziam antes, desta vez os cientistas optaram por combatê-la no formato exato que adquire ao ligar-se aos receptores da célula do paciente. "Essa foi a grande descoberta e desponta como o caminho mais correto a ser seguido", acredita Ricardo Diaz, da Universidade Federal de São Paulo.
Muitas pesquisas serão necessárias até surgir um produto para testes em humanos. Os Estados Unidos iniciaram a fase 3, destinada a investigar a eficácia de uma vacina contra a gp120 do subtipo B aplicada em um grupo numeroso de voluntários. O objetivo de toda vacina é copiar o que nosso sistema imunológico faz naturalmente. No caso da Aids, a empreitada é muito mais difícil. Os cientistas tentam imitar o que o corpo ainda não foi capaz de fazer.
Cristiane Segatto, Época, 18/01/99
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