A biologia que dá lucros
Monsanto amplia investimentos para revolucionar a agricultura

Antes mesmo que o teletransporte do Dr. Spock se torne realidade, os consumidores poderão saborear batatas mais nutritivas, com maior concentração de amido, enquanto a indústria ganhará em produtividade com tomates de menor concentração de água ou o algodão que já brota colorido. Essas transformações genéticas nas plantas para torná-las mais adequadas às necessidades humanas prometem ser um dos grandes negócios de um futuro não muito distante. Chamado de Biotecnologia ou Ciências da Vida, esse setor já atrai o interesse de poderosas corporações, que investem pesado em pesquisas para colher lucros na virada do século. "A idéia é colocar todas as informações genéticas que necessitamos nas sementes das plantas, não tentar corrigi-las depois", resume Robert Hoffman, vice-presidente da Monsanto, multinacional americana que tem no Brasil seu segundo maior mercado no mundo.

Não por acaso, o grupo de 24 executivos que planeja a estratégia futura de crescimento da companhia esteve reunido no Brasil por uma semana em novembro. O desafio é grande. A Monsanto enfrenta nesse mercado adversários de peso, como a Dow Chemical, Du Pont, Hoescht e Novartis – o recente casamento da Sandoz e da Ciba Geigy. Para se ter uma idéia do poderio dessa turma, só a Du Pont investiu US$ 1,7 bilhão numa joint-venture com a Pioneer para formar a Optimum Quality Grains. A própria Monsanto aplica todo ano em pesquisas cerca de US$ 1 bilhão dos US$ 6 bilhões que fatura. Como todos nesse segmento, a companhia nasceu no setor petroquímico, mas avançou para outros ramos, que mais tarde se tornaram as tais ciências da vida – como fertilizantes, química para alimentos e farmacêutico. No ano passado, a Monsanto optou por se dividir e deixar a petroquímica a cargo da empresa Solutia. "São dois negócios de perfis diferentes: o químico é mais conservador, exige menos investimentos e o retorno é mais longo. Já a biotecnologia pede mais investimentos e o retorno pode ser mais rápido", explica Antonio Carlos Queiroz, presidente da subsidiária brasileira.

Os movimentos ecológicos também forçaram a mudança dessa indústria, que transformou em um bom negócio bandeiras politicamente corretas: desenvolver a qualidade dos alimentos e reduzir os custos agrícolas, evitando impactos sobre o meio ambiente. E é justamente com essa filosofia que a Monsanto desenvolveu seu principal produto no País, o herbicida Roundup, utilizado especialmente na técnica de plantio direto das lavouras de soja. Seu maior benefício é dispensar o preparo da terra com arados, o que ajuda a evitar a erosão. A boa aceitação fez com que a empresa invista US$ 60 milhões numa nova fábrica do Roundup em São José dos Campos em 1998. "A biotecnologia já começa a promover uma verdadeira revolução na agricultura", afirma Queiroz. Na área de alimentos industrializados, o carro-chefe da Monsanto é o adoçante Nutrasweet, utilizado na fabricação de diversos produtos dietéticos. Este ano, a empresa decidiu lançar seu primeiro produto diretamente voltado para o consumidor final, o Equal, com um investimento previsto de US$ 7 milhões para o primeiro ano. O plano é alçá-lo em cinco anos à vice-liderança do mercado. Se bem sucedido, o Equal ajudará a Monsanto a saltar de um faturamento de US$ 400 milhões no Brasil, em 1997, para US$ 1,1 bilhão em 2002.


Álvaro Almeida, ISTOÉ, 19/11/97

Última Atualização: 23/Set/99

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