O mapa da mina
Brasileiros descobrem técnica para desvendar código genético e tratar doenças como câncer

Imagine o dia em que uma única célula revelará ao médico mais informações sobre a saúde do paciente do que uma bateria de exames. Chegará o tempo em que as informações genéticas contidas em um tumor poderão ser agrupadas, impressas e checadas em poucos minutos como um cupom de supermercado. Para escolher o melhor tratamento para um câncer, bastará observar quais genes estão em atividade e administrar remédios que alterem somente as proteínas produzidas por eles. Mas como apontar desvios da natureza sem antes traçar um padrão de normalidade? É isso que os cientistas tentam fazer nos dois mais importantes projetos de mapeamento dos genes humanos em andamento nos Estados Unidos.

Na sexta-feira 26, o Brasil entra oficialmente nessa corrida com uma técnica promissora que promete rápido seqüenciamento da parcela mais informativa do genoma humano. Nesse dia, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, instituição internacional que mantém uma filial em São Paulo, assinam acordo de cooperação no valor de US$ 10 milhões.

Nos próximos dois anos, os brasileiros envolvidos no projeto Genoma Câncer vão determinar a ordem de 200 milhões de pares de bases (adenina, timina, guanina ou citosina) que formam o material genético (DNA). Esses aminoácidos funcionam como letras químicas que, combinadas, codificam as proteínas. Desvendando esse alfabeto, os cientistas saberão quais genes ditam que ordens ao organismo e, no futuro, poderão interferir no mecanismo de doenças.

A tarefa é das mais ambiciosas e requer disposição para lutar contra o relógio. O governo americano financia o mapeamento completo dos 3 bilhões de pares de bases que formam o corpo humano e pretende concluir o trabalho em 2003, dois anos antes do previsto. Um rascunho do mapa deve, porém, estar pronto em fevereiro do ano 2000 e disponível na Internet. Ainda que com buracos e imperfeições, o levantamento sairá antes do trabalho paralelo do polêmico geneticista americano Craig Venter, que pretende completar o genoma em 2001, patentear as informações e revendê-las à indústria farmacêutica.

Em meio a essa disputa, os pesquisadores brasileiros descobriram um atalho. Em vez de mapear todo o código genético como fazem os americanos, eles querem ir direto aos 3% do genoma que realmente codificam proteínas. Estima-se que os 97% restantes sejam formados por nucleotídeos ou unidades sem função conhecida, longos espaços entre um gene e outro provocados por acidentes evolutivos. "O mapeamento total é uma opção purista demais", acredita o coordenador do Genoma Câncer, Andrew Simpson. "Os americanos vão demorar para obter um excesso de dados nem sempre úteis." Para ganhar tempo, o time brasileiro optou por trabalhar com etiquetas de seqüências expressas (ESTs), alternativa criada em 1991 pela qual fragmentos de DNA são sintetizados a partir de moléculas de RNA, o material mensageiro envolvido na produção de proteínas. Dessa forma é possível separar as unidades sem função dos genes que interessam. Hoje existem cerca de 60 mil ESTs publicadas e cada uma corresponde a um gene diferente. A desvantagem é que são seqüências localizadas em geral nas extremidades do DNA, justamente a parte menos informativa do material.

Simpson e o colega Emmanuel Dias Neto conseguiram driblar o problema. A estratégia que está sendo patenteada pelo Instituto Ludwig e pela Fapesp favorece acesso aos genes mais raros e permite chegar ao centro das regiões codificadoras, que guardam mais informações biológicas. A técnica batizada de Orestes - do inglês Open Reading Frames ESTs - permitiu identificar cerca de 2.500 seqüências novas no projeto piloto. Os pesquisadores agora vão investigar células alteradas e normais de tumores de alta incidência no Brasil, como os de colo de útero, estômago, laringe, boca e língua.

Mas para chegar aos 80 mil genes que compõem o corpo humano é preciso analisar o maior número possível de tecidos. Para isso, cinco laboratórios de universidades públicas já receberam novas máquinas seqüenciadoras. Fazem parte da rede Onsa (sigla em inglês de Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos), criada pela Fapesp para mapear a bactéria Xylella fastidiosa, projeto quase concluído. "É impossível prever dividendos, mas o convênio demonstra a credibilidade nos laboratórios da rede", comenta o diretor científico da Fapesp, José Fernando Perez. O grupo de Simpson está animado. Principalmente jovens doutores como Sandro de Souza, que passou quatro anos na Universidade de Harvard sob a orientação do Nobel de Química Walter Gilbert e agora encontrou uma razão a mais para voltar ao Brasil.


Cristiane Segatto, Época, 23/03/99

Última Atualização: 23/Set/99

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