As olimpíadas nazistas

Jogos de Berlim A

O nazismo começou a fervilhar logo após a I Grande Guerra, por volta de 1919, quando a Alemanha, arruinada por seus gastos bélicos, vivia uma inflação avassaladora. Ao mesmo tempo, o país se preocupava com o crescimento do comunismo na velha Rússia, chamada na época de União Soviética. Crescia nesse mesmo período o poder de um ditador, nascido em 1889 na Áustria. Era Adolf Hitler, que na I Guerra Mundial foi cabo e ganhou, por duas vezes, a maior condecoração da Alemanha por heroísmo em ação. Hitler era talentoso e explosivo, capaz de inflamar multidões com seus discursos. Era um apreciador da leitura tendo, contraditoriamente, lido Karl Marx e Friedrich Nietzsche.

Em 1919, Hitler ingressou no Partido Nazista e passou a defender a supremacia da raça ariana e uma vingança contra os britânicos, franceses, norte-americanos, russos e especialmente judeus. Assim, acabou se tornando um líder do nazismo.

Em 1923, passou nove meses na prisão por ter participado de um golpe contra o governo de seu país. Na cadeia, escreveu um credo do nazismo, chamado "Minha Luta" (Mein Hampf). Ao mesmo tempo em que Hitler ascendia na Alemanha, outros ditadores começaram a se espalhar pela Europa. A Itália invadiu a Abissínia (hoje Etiópia), na África; o Japão invadiu a Manchúria, na Ásia. Por outro lado, uma grande depressão atingia os países vencedores da I Guerra: Grã-Bretanha e Estados Unidos.

Dentro desse cenário, Hitler lançou um programa de recuperação e revitalização da Alemanha. Em 1932, o Partido Nazista já contava com 920 mil filiados contra os 100 mil de 1928, e Hitler tornou-se chanceler da Alemanha.

Com um país reindustrializado, Hitler conseguiu a honra de seu país sediar os Jogos Olímpicos, que deveriam ter sido realizados em Berlim em 1916, mas acabaram sendo cancelados devido à I Guerra Mundial.

Em 1934, preocupados com as perseguições, os judeus tentaram boicotar os Jogos de Berlim. O movimento foi orientado por Henry Morgenthau, um cidadão integrante da cúpula do governo dos Estados Unidos e de origem hebraica. Ele tentou obter do presidente Franklin Roosevelt o apoio a esse boicote.

Depois de muita pressão, Roosevelt concordou em enviar à Alemanha um observador para fazer um relatório sobre o nazismo e as intenções de Hitler. Foi indicado para isso Avery Brundage, ex-competidor olímpico. O que Roosevelt desconhecia era que Brundage dirigia um clube racista nos Estados Unidos, que não permita a entrada de negros e judeus.

Assim, Brundage voltou aos Estados Unidos elogiando a Alemanha. Ao tomar conhecimento desse relatório, o belga Henri de Baillet-Latour, do COI e um antinazista, manifestou seus receios a Roosevelt e solicitou o apoio dos Estados Unidos para que outro país fosse escolhido para sediar os Jogos de 1936. Roosevelt apoiou então uma tentativa de transferir os jogos para Barcelona, na Espanha. Porém, essa tentativa fracassou por causa do início da revolução civil na região e do apoio do general Francisco Franco ao nazismo e à Alemanha. Assim, tendo conquistado o direito de sediar os Jogos, a Alemanha gastou uma fortuna na construção de instalações, com o treinamento de seus atletas e com viagens e despesas de comitivas e atletas.

Hitler consentiu também que os americanos incluíssem em sua delegação negros e judeus. Curiosamente, os judeus tiveram o "privilégio" de disputar pela Alemanha, como a atleta Helena Mayer, campeã de florete feminino, nos Jogos de Amsterdã, em 1928.

Tudo isso, porque Hitler fazia questão da presença dos Estados Unidos nos Jogos. Na abertura das Olimpíadas, em 01 de agosto, puderam ser vistos por toda a Berlim, os uniformes da SS, polícia uniformizada do nazismo, e policiais da Gestapo, a polícia não uniformizada.

A cidade foi enfeitada com gigantescas suásticas e nas principais praças da cidade bandas marciais executavam os hinos preferidos de Hitler. No céu, sobrevoava o dirigível Hindemburgo. Um sino, pesando 14 toneladas, troou a melodia Deutscheland Über Alles, ao mesmo tempo em que 20 mil pombos brancos faziam uma revoada.

Hitler recebeu do grego Sypiridon Louis - campeão da maratona de Atenas, em 1896 - um ramo de oliveira colhido nos montes de Olímpia. Ele ainda foi saudado pelos 100 mil espectadores e atletas visitantes que, com o braço estendido na horizontal, gritavam "Seig, Heil! Heil, Hitler! Heil Fuerher!".

Depois de um rápido discurso do ditador, entraram no estádio os últimos integrantes do revezamento de 3.000 pessoas, que trouxeram, desde a Grécia, a tocha olímpica. Tudo isso foi registrado pela cineasta Leni Riefensthal, contratada por Hitler, que produziu o filme "Os Deuses dos Estádios". Para isso, foram usados 300 quilômetros de película.

O Estádio de Berlim, que havia sido construído para os jogos de 1916, surpreendeu pelas instalações modernas. Do lado de fora, uma piscina e acomodações para 16.000 torcedores. Em todos os cantos, foram instalados equipamentos sofisticados de controle dos tempos das provas. Pela primeira vez, o evento foi transmitido para a recém-inventada televisão.

A Vila Olímpica foi construída nas proximidades do estádio: chalés de alvenaria e 38 refeitórios. As atletas (328 mulheres) ficaram hospedadas em cabanas exclusivas, muito mais confortáveis do que às destinadas aos homens.

Nos Jogos de Berlim, foi registrado o maior número de atletas inscritos desde o início dos Jogos Olímpicos da era moderna. No entanto, apesar do sucesso, Hitler foi obrigado a "engolir" a presença dos atletas negros dos Estados Unidos e especialmente o destaque deles nas provas de Atletismo, provando que não existia raça superior.

No final dos Jogos, ocorreram na Alemanha represálias e perseguições: Hitler não se conformava com os resultados finais. A Alemanha conquistou 33 medalhas de ouro contra as 24 alcançadas pelos Estados Unidos. E Hitler havia acreditado, antes dos jogos, que a Alemanha conquistaria mais de 6o medalhas de ouro.

Por outro lado, o ministro da Propaganda de Hitler, Paul-Joseph Goebbels, proibiu que as notícias das vitórias dos negros americanos fossem publicadas no jornal diário dos nazistas.

Já adoentado, o barão de Coubertin não tomou conhecimento de todos esses fatos, e morreu em 1937 sem saber dos horrores praticados na Alemanha. Com a expansão do nazismo e a II Grande Guerra, não foram realizados os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1940, e em Londres, em 1944.

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