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O que será que a arquitetura de uma determinada cidade pode falar sobre ela? Esta é uma pergunta que mesmo quem nasce, mora e anda na cidade todos os dias, muitas vezes nunca parou para pensar. Muitas pessoas podem não perceber, porém nossas construções arquitetônicas podem dizer muito mais do que se pensa sobre nós, como por exemplo nosso estilo de vida, valores, cultura, economia, clima e até mesmo nossa história, como em monumentos ou influências remanescentes de outra época. Mesmo assim, algumas vezes nem tudo o que se observa corresponde a aquilo que se vê. Um exemplo bem atual disso são os arranhásseis dos grandes centros econômicos, pois muitas vezes não é coerente que um grande número de pessoas fiquem “enclausuradas” naquilo que não é nada mais do que uma torre fechada com um ar condicionado, enquanto há muito mais espaço e um clima agradável fora de lá. Nesta situação fica muito claro de como a influência dos países desenvolvidos atua no resto do mundo, inclusive naqueles que não possuem um clima semelhante. É evidente as transformações que as cidades medievais sofreram ao longo da história, dando origem às cidades atuais. A tecnologia, a organização social, o crescimento da população urbana, a arte, a necessidade de uma infra-estrutura básica de higiene e a influência da Igreja, são alguns dos fatores que fizeram com que as cidades mudassem tanto. Por se tratar de tema muito abrangente, pois desde a Baixa Idade Média as cidades não pararam de crescer, tomamos como base de estudos as cidades medievais da Europa Ocidental Cristã, e como cidade contemporânea, a quarta maior cidade do mundo, São Paulo.
O Universo da Europa Ocidental X O Universo da São Paulo atual Na Europa Ocidental, por volta do século XV, a concentração e o fluxo de pessoas ainda era maior no campo.Contudo, foi nessa época que a cidade e a vida urbana estavam ganhando brilho, devido ao aumento da camada de burgueses e também das atividades comercias. A população vivia em uma sociedade estamental, na qual havia pouca mobilidade social, o poder político era hereditário e só pertencia a famílias nobres, assim como parcela do poder econômico. Por isso, por mais que a burguesia se desenvolvesse e adquirisse importância econômica, sua origem social humilde atuava como uma barreira no que se referia aos privilégios sociais, criando uma progressiva insatisfação na mesma. A camada de burgueses começou então a ajudar a Igreja Católica, buscando nela não um aliado, e sim uma forma de se integrar mais rapidamente à sociedade. Começou dessa forma a ajudar monetariamente as Igrejas Católicas, e foi nessa época que as mais belas e enormes Catedrais surgiram. Enfim, a riqueza aumentava, a burguesia crescia dominando o capital, e junto com o crescimento da camada burguesa, as cidades se desenvolviam e cresciam mais, e como resultado desse crescimento temos as enormes cidades que formam o mundo atual. Saindo da Europa, e vindo para a América Latina, mais precisamente para o Brasil, na cidade de São Paulo dos dias atuais, percebemos que o fluxo e a concentração de pessoas ocorre dentro da própria cidade, onde ocorrem também a maioria das atividades comercias e onde o fluxo de dinheiro é muito grande. A sociedade de hoje em dia é classificada como capitalista, que no começo contava apenas com duas classes sociais: proprietários e não proprietários dos meios de produção. Porém, depois das mudanças, essa mesma sociedade chegou no século XX com uma camada intermediária entre as citadas anteriormente que existe até hoje. Essa nova camada é composta pela classe média dos países que servem de base para o capitalismo, e ocupa funções nos diversos setores dos ramos de prestação de serviços e da pequena e média propriedade. Com uma sociedade tão voltada para o comércio, fica claro que comerciantes de hoje em dia não são mais indiferentes na sociedade, visto que a mesma gira em torno da atividade que eles mesmos praticam. Como falamos dois parágrafos acima, a cidade de São Paulo é um centro comercial, onde ocorre grande fluxo de dinheiro. Esse fluxo monetário acaba por ajudar a cidade, fazendo com que ela cresça de maneira mais rápida e conte com algumas regalias para seus moradores, como o metrô, que permite que a população se locomova por quase toda a São Paulo sem o problema do tráfico de trânsito. Se esse fluxo monetário ajuda a cidade, também podemos dizer que ele atrapalha. Citamos no parágrafo acima o problema do trânsito, que ocorre devido ao exagerado número de pessoas que vivem na mesma cidade. O que nos aflige é: sendo um grande centro comercial, São Paulo tende a atrair cada vez mais pessoas para dentro dela, pessoas essas que vem a procura de emprego numa cidade regada de grandes empresas, escritórios e indústrias, e que muitas vezes acabam não conseguindo o esperado, e continuam desempregadas, aumentando o número de pessoas na cidade que não contribuem com a parcela que é devida a cada cidadão. Devido à isso, fica cada vez mais difícil formar uma sociedade formal, com cada cidadão contribuindo com os impostos que são inerentes à sua profissão. Além disso, a informalidade não contribui para o giro do capital condizente com o sistema capitalista.
Qualidade de vida nos séculos XIV-XV e XX-XXI
Os séculos XIV-XV na Europa foram marcados por uma crise geral, devido a fatores como declínio demográfico, esgotamento de metais, conflitos envolvendo a religião e outros valores que estavam surgindo, como a liberdade dos homens e o comércio da burguesia, e queda da economia. Estas condições acabaram gerando uma qualidade de vida ruim. Houve revoltas na cidade e no campo, as chamadas jacqueries. Além disso, a Peste Negra, a Grande Fome e a Guerra dos 100 anos contribuíram e agravaram a crise. Tudo isso se deve ao fato de que a Europa estava no meio de diversas mudanças estruturais, com a decadência do Feudalismo. Apesar de todo o avanço de técnicas agrícolas, ele começou a não ser suficiente para atender as necessidades da época, pois a população estava crescendo constantemente e as terras aráveis se esgotando, desenvolvendo então um nível técnico mais baixo do que o necessário. Para combater estas crises, houve uma união da burguesia, da realeza e da Igreja, visando possibilitar a conquista de novos mercados, novas terras e novos fiéis. Para isso, houve a Expansão Marítima, que ajudou a fortalecer os estados da Europa.
Toda esta situação de problemas e crises na Europa dos séculos XV-XVI é diferente de agora, nos séculos XX-XXI, e na nossa cidade de São Paulo, por exemplo. Ainda há diversos problemas urbanos, políticos e sociais, mas apesar disso, a qualidade de vida é muito melhor do que nos períodos citados anteriormente. O nível técnico praticamente alcança o necessário e a medicina hoje em dia é muito avançada também, o que resulta em uma expectativa de vida maior e, portanto, no crescimento da população. Muitos dos problemas que ainda existem nas cidades vêm do fato da população ser muito polarizada, ou seja, quem dispõe de mais dinheiro tem todo o atendimento e recurso que precisa, já os pobres, não dispõem de quase nada que a tecnologia e modernidade oferecem, tendo como melhor exemplo o serviço público que são obrigados a utilizar e que apresenta diversas falhas, como falta de remédios para os doentes e horas na fila para o atendimento médico necessário. Podemos notar que apesar dos séculos XIV- XV e XX-XXI e das regiões da Europa e São Paulo estarem muito distantes, ambos apresentam problemas em suas estruturas e tentativas de superação constantes, ora úteis, ora em vão.
Arquitetura Gótica e Românica A arquitetura medieval em que trabalharemos está basicamente dividida em dois estilos arquitetônicos: O Românico e o Gótico, e estes prevaleceram na Europa Ocidental durante a Alta e a Baixa Idade Média respectivamente. A primeira diferença que notamos entre a igreja gótica e a românica é a fachada. Enquanto a igreja gótica tem três portais, a igreja românica apresenta um único portal que dá acesso a três naves do interior da igreja (a nave central e as duas naves laterais). Tanto a arquitetura românica quanto à gótica expressam a grandiosidade, a crença na existência de um Deus. As igrejas românicas são sempre grandes e sólidas, a explicação mais aceita para as formas volumosas e duras dessas igrejas é o fato da arte românica não ser fruto do gosto refinado da nobreza nem das idéias desenvolvidas nos centros urbanos, é um estilo essencialmente clerical. Outros elementos característicos da arquitetura gótica são os arcos ogivais e os vitrais que filtram a luminosidade para o interior da igreja. Do contrário das igrejas românicas que utilizam raras e estreitas aberturas usadas como janelas. Tomando a catedral da Sé como ponto de comparação das arquiteturas gótica e românica com os dias atuais, é possível afirmar que há predominância da arquitetura gótica, mas há também presença de certos traços românicos. A herança da arquitetura gótica está nas altas torres que buscam “alcançar” um Deus que vive em um plano superior, nos portais que dão acesso as naves do interior da igreja e nos vitrais coloridos que filtram a luz para dentro da igreja. Porém os dois estilos arquitetônicos estão presentes no tamanho da catedral, daí ser chamada de fortaleza de Deus.
Economia, sociedade e cultura: como foi o reflexo destes fatores na arquitetura ao longo da História De acordo com a nossa pesquisa, pudemos constatar que cada época teve sua arquitetura característica, pois cada uma estava perfeitamente adaptada a sua realidade e ao seu meio. Assim, tais características só são mantidas enquanto estiverem coerentes com a sua realidade, pois se não elas simplesmente são menos usadas. Tomamos como exemplo as igrejas românicas, que dentre outras características, apresentavam paredes grossas, poucas janelas, imponência e robustez. Isso se devia a situação em que as cidades européias se encontravam na época em que foram construídas, no caso, quando a Igreja Católica era a mais poderosa instituição, isto era demonstrado nas construções através da imponência e do tamanho das mesmas; a Idade Medieval era também uma época em que havia muitas invasões de outros povos, então as igrejas exerciam outro papel na vida urbana, o de “fortaleza” para os seus habitantes, daí as paredes grossas e poucas janelas que além de darem um ar obscuro, mítico e propício para a religiosidade, também serviam como uma forma de defesa no caso de uma invasão. Já quanto às catedrais góticas, pudemos observar que há um maior uso de vitrais e da verticalidade, porém ainda ostentando muitos aspectos do estilo românico. Isso, assim como nas igrejas românicas, pode ser justificado através do contexto de quando a catedral foi construída. Como o estilo gótico surgiu logo após o românico, muitas das causas que levaram ao desenvolvimento de tais características continuavam vigorando, porém já surgiam vestígios de que algo estava mudando, ou seja, iniciava-se um processo de transição da Idade Média, para a Idade Moderna. As invasões ficaram cada vez menos intensas e as cidades foram ficando mais seguras, então foi possível um maior uso dos vitrais, pois já não era preciso tanta segurança; já a verticalidade foi possível graças ao desenvolvimento de novas técnicas arquitetônicas e o financiamento das construções pela burguesia, com o intuito de mostrar a importância de tal cidade, além de buscar o apoio da nobreza. Hoje em dia não é possível se destacar alguma característica comum dentre as construções. O mundo contemporâneo já passou por diversas transformações e recebeu muitas influências, em especial São Paulo, pois esta nunca teve uma característica própria, desenvolvida nela mesma, esta sempre foi uma mistura de cada influência vinda das mais diversas partes do mundo, desde a época da colonização, quando foi fundada, até as influências dos fluxos migratórios no século XX e as características quase que “impostas” pelo mundo capitalista. Porém mesmo não sendo possível definir como é a arquitetura contemporânea, pois cada uma possui seu próprio estilo, num âmbito geral é possível afirmar-se que a arquitetura de hoje está tão ligada ao nosso cotidiano quanto estava a arquitetura medieval na Idade Média. As cidades atuais já possuem relações comerciais muito mais interadas com a sociedade, chegando à situação em que nos encontramos agora, onde não fazemos nada para si, apenas compramos e vendemos tudo o que precisamos, temos locais próprios para a troca de moeda por produtos (os shopping centeres), enfim, a atividade comercial gerou uma enorme mudança social e conseqüentemente na nossa arquitetura.
O que será que a arquitetura de uma determinada cidade pode falar sobre ela? Com base nesta pergunta desenvolvemos o nosso trabalho, e durante o desenvolvimento buscamos sua resposta. Para encontrá-la apontamos as características de ambos os universos explorados em nossa pesquisa, a Europa Ocidental nos séculos XIV e XV, e a São Paulo atual. Apontamos também as características das artes que decoram esses mesmos universos, e tentamos ligá-las aos acontecimentos históricos que aconteceram no decorrer dos séculos.
Pudemos perceber o quanto as características gerais de um determinado estilo pode estar ligado ao modo de vida vigente ou à tecnologia disponível na época, além de influências dos estilos existentes anteriormente, assim como o Romano, o Grego, etc. Mesmo nos dias de hoje, é possível se observar algumas influências dos estilos arquitetônicos que foram muito importantes em épocas anteriores, pois afinal, nenhuma arte se “perde” com o passar do tempo, ela é apenas englobada ou relida por um novo estilo que privilegia outras ou novas características. Como exemplo disso podemos citar a construção em alvenaria, que se origina dos povos babilônicos; o uso dos arcos romanos que como o próprio nome diz vêm do Império Romano; a imponência das construções ligadas à religião que também pode ser observado desde o Egito Antigo com as pirâmides, dentre muitos outros exemplos. Com a arquitetura medieval não foi diferente, com o passar dos séculos ela foi sendo englobada em novos estilos, e pode ser percebida (mesmo que sutilmente) nos dias de hoje em nosso cotidiano, como na fachada do Shopping Iguatemi, nos vitrais do Mercado Municipal de São Paulo ou da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, na Estação Júlio Prestes, no prédio que sedia o Banespa, na Cetedral da Sé, etc. Assim, os estilos Gótico e Românico, tiveram a sua época de grande importância na Idade Média, pois estes refletiam a sua sociedade perfeitamente, e mesmo nos dias de hoje, em que a sociedade mudou muito comparada àquela época nós continuamos a resgatá-la, com a diferença de que agora o fazemos apenas por questões de estética e não mais de necessidade.
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