Relato da história do Projeto Cidadania no Villalva
Mais um ponto na Rede a construir o tecido da cidadania!
Uma experiência que está sendo construída
A formação do cidadão consciente e atuante (não seria necessário adjetivá-lo, mas o conceito de cidadão em nossa sociedade parece ter-se esvaziado) é um dos objetivos da educação. Mesmo sendo garantidos por diversas leis, debatidos e defendidos por inúmeras instituições, os direitos fundamentais do ser humano têm sido violados de forma insensível e brutal. Na maioria da vezes ocorre com a conivência da população (refletida por uma aparente normalidade, gerando uma insensibilidade frente a situações que são verdadeiras aberrações) e com a negligência do Estado, promiscuído por interesses corporativistas ou por falta de vontade política dos nossos "representantes".
Por outro lado, a indignação é latente. Chegar ao limite pode gerar reações violentas, desmesuradas ou traduzir-se em violações de direitos de indefesos, tornando-os duplamente vítimas (no caso de violência contra mulheres, crianças, presos, etc). Mais do que sensibilizar as pessoas, é preciso conscientizá-las de que cada um é co-responsável na transformação do estado de direito do cidadão em estado de fato.
Nessa tarefa todos somos responsáveis. Não há cidadania individual e ela não se completa enquanto todos não forem envolvidos. Não basta esperar que o Estado faça algo é preciso cobrar para que ele cumpra o seu dever. Não basta reconhecer que a escola é um centro de formação do cidadão, é preciso que ela cumpra o seu papel social. Não basta solidarizar-se com pessoas, entidades, instituições que defendem os direitos do cidadão, é preciso exercer a cidadania no seu meio, no seu espaço, respeitando e garantindo o direito do outro, preservando o espaço coletivo. É preciso deixar de ser, como definiu Gilberto Dimenstein, apenas um cidadão de papel.
É nesse contexto que o Projeto Cidadania, idealizado pelo jornalista Gilberto Dimenstein, chegou até as escolas. A idéia não é apenas criar uma discussão sobre o tema, mas transformar esse espaço, essencialmente formador, que é a sala de aula num centro de produção de consciência e atitudes de cidadãos. O aluno não é um alvo, maso um participante ativo dessa construção. Para isso, ele tem que se sentir sujeito da sua produção (conhecimentos e atitudes). A utilização da informática, especialmente a Internet, é um facilitador desse processo.
O Projeto Cidadania, assumido pelo Colégio Bandeirantes, tem criado esse ambiente entre os alunos e os professores nele envolvidos e assumido contornos esperados e inesperados, positivamente. Um deles é o desdobramento do Projeto através da parceria do Colégio Bandeirantes com algumas escolas públicas, dentre elas a EE Carlos Augusto de Freitas Villalva Júnior.
O que se segue é um pequeno relato dessa experiência que está sendo construída. A reflexão anterior não teve o objetivo de explicar o Projeto, mas apenas situar o pouco tempo de vida dessa idéia, semeada por aqui. Considero bastante esclarecedor e conclusivo o relato sobre a experiência do Projeto no Colégio Bandeirantes, feito pelos seus coordenadores.
O primeiro contato foi feito no 2o semestre de 1997 com a coordenadora Clarice Kelbert do "Cidadão na Linha", como é chamado no Colégio Bandeirantes. Nesse encontro, foi explicado as linhas gerais do Projeto, como a experiência estava sendo desenvolvida, o porquê da extensão às escolas públicas (era objetivo de seu idealizador que essa idéia se expandisse e que passasse necessariamente pelas escolas públicas) e as condições mínimas para que fosse assumido. A parceria previa o suporte técnico e pedagógico por parte do Colégio Bandeirantes e o compromisso e a vontade de fazer essa experiência acontecer por parte das escolas conveniadas (além desta, a EE Rui Bloem e a EE Brasílio Machado).
A idéia foi recebida com entusiasmo. Ao mesmo tempo nascia a angústia de como trabalhar com a infra-estrutura precária de que dispúnhamos ( 3 máquinas, uma linha telefônica para toda a escola, mais de 2 mil alunos e professores com pouca disponibilidade de tempo, fora da sua estafante jornada de trabalho). O sentimento inicial era de inferioridade diante da infra-estrutura do Colégio Bandeirantes. Porém a Clarice e Gilberto nos tranqüilizaram, mostrando que o Projeto poderia e teria que acontecer dentro das condições de cada escola.
O Gilberto Dimenstein acompanhou os primeiros encontros, defendendo que a razão de ser do projeto, desde a sua criação, é o envolvimento das escolas públicas e mostrando a importância dos novos meios de comunicação - especialmente a Internet - no trabalho pedagógico, na formação do cidadão e no futuro profissional num espaço de tempo relativamente curto.
A partir desse conhecimento geral do Projeto, cada escola se organizou de acordo com a sua realidade, necessitando de orientações específicas em função da dinâmica que foi assumido. O Villalva teve a seguinte tragetória:
1 - Parte técnica:
Tivemos a visita de engenheiros do colégio Bandeirantes avaliando as condições da infra-estrutura e dos equipamentos. Técnicos vieram posteriormente para adaptar as máquinas, instalando os moldens e softwers necessários.
Quanto a linha telefônica, o processo de instalação foi mais demorado. A APM (Associação de Pais e Mestres) se prontificou em colaborar com o Projeto e providenciou o aluguel de uma linha. Houve demora na instalação e posteriores cortes por falta de pagamentos dos antigos inquilinos. Com isso tivemos muita dificuldade de acessar o Provedor do Colégio Bandeirantes.
2 - A organização do grupo:
Pela pequena quantidade de máquinas disponíveis na escola e por estar o ano letivo em andamento, decidiu-se por não adaptar o currículo de sala de aula, mas trabalhar com uma espécie de grupo de estudo, formado por alguns alunos de várias séries. Esse seria o grupo embrionário do Projeto e se reuniria semanalmente fora do período de aulas.
A opção foi iniciar com s 1as. Séries do Ensino Médio. Como eram muitas, houve uma discussão sobre qual seria o critério de seleção dos alunos participantes. Houve uma indicação de alguns alunos de cada série por parte dos professores e dessa indicação escolheu-se um grupo de 15 alunos, a partir do interesse e da disponibilidade de tempo.
Tão logo formou-se, o grupo foi convidado a conhecer o Projeto, apresentado pelos alunos do Colégio Bandeirantes. Nesse encontro, escolheu-se 3 alunos que teriam orientação técnica para construir uma Home page. Os alunos voltaram empolgadíssimos. Esse astral envolveu o grupo durante todo final de semestre, mesmo diante da dificuldades técnicas.
3 - O trabalho:
Embora estivéssemos em outubro, havia uma vontade muito grande de começar, de criar uma identidade para o grupo e para o Projeto.
Ao mesmo tempo que uma equipe recebia orientações e começava a construir a Home page do Villalva, o grupo se reunira semanalmente, fora do período letivo, para discutir temas ligados à cidadania, papel e atuação dos cidadãos. O primeiro tema escolhido foi violência urbana, a partir do livro Aprendiz do Futuro (Gilberto Dimenstein). Ainda não tínhamos acesso à Internet, por problemas técnicos. Se a pesquisa por meio desse instrumento ainda não era possível, o aprofundamento era necessário e o resultado dessa discussão poderia ser registrado e posteriormente alimentar o nosso espaço na Rede.
A partir dessa pesquisa e discussão, o grupo resolveu desenvolver algumas atividades:
divididos em equipes, cada alunos pesquisou sobre como a violência era expressa em alguns meios de comunicação: jornais (vários jornais do mesmos dia), televisão, rádio e músicas. O resultado dessa pesquisa culminou num pequeno texto que cada equipe elaborou para ser colocado na nossa página da Internet.
Pesquisa de opinião entre os alunos do Villalva sobre violência, pichação e cidadania. O ano letivo findou antes que pudéssemos fazer uma análise dos dados já tabulados e representados graficamente.
4 - Nossa Home page:
Em novembro, cada escola apresentou para ser "colocada no ar" a sua Home page. Ela foi um produto de um pouco do que a equipe aprendeu nas orientações tidas no Colégio Bandeirantes. O fazer e o espelhar-se no resultado foi o primeiro reconhecimento de que o grupo tinha uma existência própria e cada vez mais ia adquirindo uma identidade. Mas a obra estava incompleta, não deu tempo para fazer as modificações necessárias e o ano findou.
1998 - A retomada do trabalho
As férias escolares deixou em suspenso o trabalho começado. A vontade de continuar, porém, aumentou com o início do novo ano letivo. Os alunos do grupo passaram para série seguinte (2a ) e , com exceção de 3 alunos, continuou o mesmo.
Foi preciso um pouco de tempo para reorganizar a vida na escola e retomar o trabalho. Tão logo foi possível, o grupo voltou a reunir. Na avaliação do que foi feito, um questão: e agora?
A angustia da equipe de professores que acompanha o Projeto era como envolver a sala de aula, a escola e não ficar um trabalho isolado de um grupo. O Projeto tinha sido divulgado, criou-se um fato na escola, mas ainda não conseguíamos fazer com que a escola participasse efetivamente do Projeto. O problema da infra-estrutura ainda é uma barreira para se trabalhar com turmas maiores.
1 - O novo grupo:
A opção foi continuar com um grupo que se encontre fora do período letivo, mas que esse grupo, de uma certa forma, fosse uma ligação com as classe onde esses alunos estudam. Decidi-se, por enquanto trabalhar com apenas uma série. Um aluno de cada classe, 18 no total (para que ele fosse o elo de ligação do Projeto com a sala de aula), formaria o novo grupo, que deixaria o Projeto ao passar para a série seguinte. Excepcionalmente durante esse ano de 1998, o grupo que iniciou o Projeto (por estarem no grupo há 6 meses) continuará, integrando o que iniciará.
Esse novo grupo entraram em contato com as idéias gerais do Projeto no encontro com os alunos do Colégio Bandeirantes, no dia 11/05.
Enquanto o novo grupo não se formava, o anterior continuou se encontrando para resolver algumas pendências: a reestruturação da parte física da Home page e a atualização do material produzido.
2 - Organização do trabalho:
Como o grupo aumento de tamanho, optou-se por fazer um encontro quinzenal com o grupo e, nesse intervalo, as equipes responsáveis pelas atividades decorrentes das discussão do grupo e pela atualização dos outros espaços da nossa Home page se encontrariam.
Decidiu-se que se trabalharia com um tema gerador por bimestre, escolhido pelo grupo. O primeiro foi: preconceito e cidadania. Além da pesquisa e discussão sobre o tema, foram propostas a seguintes atividades:
Pesquisa de opinião entre os alunos do Villalva:
Visita a Instituições que trabalham com pessoas que sofrem discriminação: Casa Vida, Hospital do Câncer, Centro de Consciência Negra, APAE, AACD, etc.
Entrevistas com pessoas que passaram ou passam por situações de preconceito.
Os temas seguintes tiveram a mesma dinâmica.
Criou-se um espaço chamado Sala em Debate, onde cada aluno do grupo traria, mensalmente, da sua sala o que faz ou discute relativo à cidadania e ao mesmo tempo leva para a sala o que se faz e discute no grupo.
Alem desses espaços ligados diretamente ao Projeto, criou-se outros ligados à escola em geral: Notícias do Villalva, Explosão de Talentos (divulgação dos talentos dos alunos que estudam aqui), entre outros.
1999 - Cara nova
Novos alunos, novo formato da Home page, novas idéias. A história está sendo construída. Acompanhe o seu desenvolvimento e aguarde o relato!
Nilso Campagnaro - Coordenador do Projeto Cidadania no Villalva